Sassenach

Menina fada lendo com dragão e livro mágico, imagem ilustrativa provisória.

Onde as perguntas abrem caminhos

A Escola dos Porquês

Se eu pudesse criar uma escola, provavelmente diriam que enlouqueci.

Nove regras, infinitas escolhas e uma última porta que sempre pode se abrir.

Quando quiser atravessar a porta Abrir a crônica Recolher a crônica

Crônica · Fragmentos de Travessia

A Escola dos Porquês Uma escola sem paredes, onde cada escolha ensina.

EVANILDE SILVA

Se eu pudesse criar uma escola, provavelmente diriam que enlouqueci.

Talvez me proibissem de ensinar.

Talvez reunissem especialistas, autoridades, estudiosos e gente muito séria para explicar, com gráficos e palavras difíceis, por que aquilo jamais poderia funcionar.

Porque, na minha escola, a primeira regra seria simples:

a criança pode falar o que quiser.

Pode perguntar.

Pode discordar.

Pode dizer que não entendeu.

Pode dizer que não acredita.

Pode olhar para o adulto e perguntar:

— Por quê?

E ninguém poderá responder:

— Porque eu mandei.

Na minha escola, perguntas não seriam sinais de desobediência.

Seriam portas.

Fada e dragão sob a lua.
I · As perguntas Toda pergunta pode ser uma porta.

A segunda regra causaria ainda mais problemas:

a criança não é obrigada a nada.

Não existe conhecimento colocado à força dentro de alguém.

Não existe o peixe sendo arrancado da água e colocado no alto de uma árvore para provar que sabe voar como o passarinho.

O peixe aprenderá sobre rios.

O pássaro conhecerá o céu.

Talvez um dia os dois sintam curiosidade pelo mundo um do outro.

Mas ninguém será chamado de incapaz apenas porque nasceu para outra paisagem.

Por isso existe a terceira regra:

a criança escolhe.

Escolhe aquilo que deseja conhecer.

Escolhe permanecer.

Escolhe partir.

Escolhe tentar.

Escolhe desistir.

Escolhe retornar.

Mas existe uma condição.

Toda escolha abre uma estrada.

Pequena fada diante de um portal encantado.
II · As escolhas Cada caminho começa quando se decide atravessar.

E então vem a quarta regra:

ela encara as consequências das próprias escolhas.

Ninguém inventará castigos.

A vida já sabe responder.

Se plantar e abandonar a semente, talvez não encontre flor.

Se construir e desistir no meio, encontrará uma obra inacabada.

Se ferir alguém, talvez descubra que algumas palavras permanecem depois que a voz se cala.

Não haverá um adulto atrás dela apagando todas as pegadas.

Porque algumas respostas só podem ser compreendidas quando os próprios pés atravessam o caminho.

Na quinta regra, retiraremos outro senhor da sala:

o relógio.

Ele continuará existindo.

Continuará andando.

O sol continuará atravessando a janela.

A tarde continuará chegando.

Mas ninguém será obrigado a florescer às nove horas e quinze minutos porque uma campainha tocou.

Um aprenderá rapidamente.

Outro precisará de silêncio.

Outro descobrirá hoje aquilo que alguém compreendeu ontem.

E tudo bem.

O relógio continuará seguindo.

E cada lado aprenderá a adaptar-se ao próprio tempo e também ao tempo do outro.

A sexta regra destruirá a caixa de estrelinhas:

não haverá prêmio nem recompensa.

Ninguém ganhará medalha por obedecer.

Ninguém receberá doces por fazer aquilo que escolheu fazer.

Cada um colherá aquilo que plantou.

Quem cultivar conhecimento terá conhecimento.

Quem cultivar habilidade terá habilidade.

Quem cultivar confiança encontrará confiança.

Quem abandonar a terra talvez encontre apenas terra.

Não será punição.

Será colheita.

Fada escrevendo sob a luz dourada.
III · A aprendizagem A experiência escreve aquilo que não cabe nas provas.

Na sétima regra haverá uma exigência:

não pode mentir.

Pode permanecer em silêncio.

Pode dizer:

— Não quero responder.

Pode dizer:

— Ainda não sei.

Pode guardar para si aquilo que pertence à sua intimidade.

Mas não poderá transformar a mentira em ponte para fugir das próprias escolhas.

E essa regra valerá também para os adultos.

Porque ninguém pode ensinar liberdade usando engano.

Depois vem a oitava:

cada um caminhará sobre suas escolhas.

Pode haver companhia.

Pode haver alguém ao lado.

Pode haver uma mão estendida quando o chão ficar difícil.

Mas ninguém poderá colocar os próprios pés no lugar dos pés do outro.

Existem caminhos que apenas quem escolheu consegue atravessar.

E talvez esta seja uma das primeiras coisas que minha escola ensinaria:

ninguém pode viver a sua vida por você.

Até aqui, provavelmente minha escola pareceria cruel para alguns.

Liberdade demais.

Responsabilidade demais.

Pouco controle.

Pouca proteção contra as próprias decisões.

Então eu abriria a última porta.

A nona regra.

A mais importante de todas:

pode recomeçar.

Pode perceber que escolheu errado.

Pode abandonar uma estrada.

Pode reconstruir aquilo que destruiu.

Pode aprender tarde.

Pode retornar.

Pode olhar para tudo o que viveu e dizer:

— Agora eu compreendo.

Nada do que aconteceu será apagado.

As cicatrizes permanecerão onde precisarem permanecer.

As experiências continuarão fazendo parte daquilo que ela se tornou.

Mas nenhum erro será uma sentença eterna.

Nenhuma escolha precisará transformar-se em prisão.

Porque depois de compreender uma estrada, sempre poderá existir outra.

Anjo e dragão sobre as nuvens.
IV · O recomeço Toda jornada pode encontrar outro horizonte.

E talvez alguém então me perguntasse:

— Mas que tipo de escola é essa?

Eu sorriria.

Porque, nesse momento, perceberia que nunca estive falando apenas de crianças.

Nem de salas.

Nem de professores.

Nem de provas.

Eu estava falando de uma escola muito mais antiga.

Uma escola sem paredes.

Onde chegamos livres.

Onde fazemos escolhas.

Onde encontramos consequências.

Onde colhemos aquilo que plantamos.

Onde ninguém pode caminhar completamente por nós.

Onde aprendemos.

Erramos.

Caímos.

Compreendemos.

E, quando uma jornada termina, recebemos novamente aquilo que talvez seja a maior misericórdia de todas:

a possibilidade de recomeçar.

Então eu finalmente escreveria o nome daquela escola na porta.

Reencarnação.

Fragmentos de Travessia
“a possibilidade de recomeçar.”

Evanilde Silva

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