Eu o chamei no meu canto.
Não com palavras difíceis.
Não com rituais grandiosos.
Não com promessas.
Eu apenas o chamei.
E ele veio.
Silencioso.
Respeitoso.
Sem perguntas.
Sem julgamentos.
Sem me pedir explicações sobre os anos em que carreguei coisas pesadas demais dentro de mim.
Ele não perguntou por que eu havia permitido que certas dores permanecessem tanto tempo.
Não perguntou por que algumas mágoas ainda moravam em lugares que eu acreditava já ter esvaziado.
Ele apenas ficou.
Diante da minha face.
Quieto.
Como se soubesse que existem dores que não precisam ser interrogadas.
Precisam apenas ser vistas.
E foi assim que começou.
Não como uma cura que chega fazendo barulho.
Mas como uma presença.
Uma presença tão calma que, aos poucos, eu percebi o quanto estava cansada de me defender.
Durante anos eu havia explicado.
Justificado.
Esperado.
Tentado entender.
Tentado ser compreendida.
Tentado descobrir onde eu havia errado.
E diante dele, pela primeira vez, eu não precisava fazer nada disso.
Eu apenas existia.
E ele permanecia ali.
Então me conduziu.
Não segurou minha mão.
Não me empurrou.
Não caminhou na minha frente como quem conhece todos os caminhos.
Ele simplesmente ficou ao meu lado.
E diante de mim apareceu a grande guardiã.
A jiboia.
Imensa.
Silenciosa.
Antiga.
Não senti medo.
Havia nela algo que eu reconhecia sem jamais ter conhecido.
Uma força que não precisava se mostrar feroz para ser poderosa.
Ela estava ali como a terra está.
Como as raízes estão.
Como o rio está.
Como certas verdades estão.
Sem pedir licença para existir.
Eu a olhei.
E ela me olhou.
Por alguns instantes, tudo desapareceu.
Não havia passado.
Não havia futuro.
Não havia perguntas.
Havia apenas aquele encontro.
Eu.
A grande guardiã diante de mim.
E ele ao lado.
Foi então que compreendi que algumas curas não acontecem quando encontramos respostas.
Acontecem quando finalmente paramos de fugir das perguntas.
A serpente não me pediu que esquecesse.
Não me pediu que perdoasse aquilo que ainda não estava pronto para ser perdoado.
Não me pediu que transformasse dor em beleza.
Ela apenas permaneceu.
E naquele silêncio, alguma coisa dentro de mim começou a se soltar.
Como uma pele antiga.
Uma pele que durante muito tempo eu pensei que fosse parte de mim.
Mas não era.
Era apenas aquilo que eu havia vestido para sobreviver.
A mágoa.
A culpa.
A espera.
A necessidade de ser aceita.
O medo de não ser amada.
O medo de ser esquecida.
O medo de ficar sozinha.
Tudo isso havia formado uma pele.
Apertada.
Pesada.
Antiga.
E diante da grande guardiã, eu comecei a deixá-la para trás.
Não houve violência.
Não houve ruptura.
Houve desprendimento.
Como acontece com a serpente.
A pele simplesmente já não servia mais.
E eu entendi.
Não precisava carregar para sempre aquilo que um dia me protegeu.
Então deixei.
Um pedaço.
Depois outro.
E outro.
Até perceber que eu estava mais leve.
Ele continuava ao lado.
O Pena Branca.
Sem interferir.
Sem me salvar.
Sem tomar para si aquilo que era meu.
Apenas acompanhando.
E talvez tenha sido essa a parte mais bonita.
Ele não me retirou da travessia.
Ele me deixou atravessar.
Há uma diferença enorme entre ser salva e ser acompanhada.
Durante muito tempo eu achei que precisava que alguém viesse me buscar.
Hoje sei que eu precisava apenas de uma presença que permanecesse enquanto eu encontrava o caminho de volta.
A grande guardiã me ensinou a trocar de pele.
O Pena Branca me ensinou que eu poderia fazer isso sem estar sozinha.
E então surgiu a pena.
Branca.
Leve.
Quase sem peso.
Ela não veio como troféu.
Não veio como símbolo de vitória.
Veio como estado.
O meu estado interior.
Depois de tanto tempo carregando pedras, eu havia me tornado pena.
Não porque a minha história tivesse desaparecido.
Mas porque ela já não pesava da mesma maneira.
Eu continuava lembrando.
Mas já não sangrava em todos os lugares onde tocava.
Continuava sabendo o que aconteceu.
Mas não precisava mais morar dentro daquilo.
Foi então que comecei a andar.
Por aí.
Pelos lugares da minha própria história.
Recolhendo os meus cacos.
Um por um.
Não para reconstruir a mulher que eu tinha sido.
Essa já não existia.
Recolhi os cacos para conhecer tudo aquilo que havia sobrevivido.
E enquanto caminhava, fui percebendo uma coisa estranha.
Eu não estava quebrada.
Os cacos eram apenas partes de mim que haviam ficado espalhadas pelo caminho.
Eu os recolhi.
Sem pressa.
Sem raiva.
Sem pedir explicações a ninguém.
E quando terminei, não precisei colá-los.
Eles simplesmente voltaram para mim.
Como se sempre soubessem o caminho.
Naquela manhã, o sol apareceu.
E eu senti a luz tocar meu rosto.
Não foi apenas calor.
Foi reconhecimento.
Como se alguma coisa dentro de mim dissesse:
“Você voltou.”
E eu soube.
Eu havia retornado inteira.
Não inteira porque nada tivesse acontecido.
Inteira porque nada do que aconteceu podia mais me dividir.
Olhei para dentro.
A jiboia permanecia como guardiã daquilo que havia sido transformado.
O Pena Branca permanecia ao lado.
E a pena branca…
a pena branca era eu.
Leve.
Silenciosa.
Presente.
Viva.
Foi então que compreendi que a cura não tinha me levado para longe da minha história.
Ela havia me devolvido a mim mesma.
E naquele instante, com o sol beijando minha face, eu não senti que estava começando outra vida.
Era a mesma vida.
Só que agora eu estava inteira dentro dela.
— Evanilde Silva