Sassenach

O silêncio entre uma existência e outra

Sorri… minha alma sorriu.

Meus olhos buscaram o horizonte e, enfim, pousaram. Minhas asas se assentaram, serenas, como quem finalmente reconhece o lugar onde pertence.

Então eu entendi: a busca findou. Não era o fim que chegava até aquela alma, mas a passagem para uma nova vida.

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Crônica · Fragmentos de Travessia

Sorri… minha alma sorriu. Um rito de passagem, memória e retorno.

EVANILDE SILVA

Sorri… minha alma sorriu.

Meus olhos buscaram o horizonte e, enfim, pousaram. Minhas asas se assentaram, serenas, como quem finalmente reconhece o lugar onde pertence.

Então eu entendi: a busca findou.

Já não tenho mais medo do escuro. O vento, antes inquieto, adormeceu na maresia, e o silêncio deixou de parecer vazio.

A Chegada: uma criança diante da água, descobrindo o mundo.
I · A Chegada A criança no cais, descobrindo o mundo.

A brisa chegou descalça.

Eu a senti entrar junto à minha respiração, leve, quase como um abraço que não precisava de braços. E ela sussurrou:

— Minha amada alma, você conseguiu. É chegado o momento do descanso.

Vem.

Foi então que compreendi.

Aquela alma havia atravessado mais um ciclo. Não era o fim que chegava até ela, mas a passagem para uma nova vida. Tudo o que doeu, tudo o que floresceu, cada encontro, cada perda e cada escolha havia deixado nela uma marca invisível — dessas que não pesam, apenas transformam.

II · A Travessia A alma segue. O horizonte deixa de ser distância e se torna caminho.

E a brisa tornou a falar:

— Agora, minha querida, sorria. Chore também, se o coração pedir. Há lágrimas que encerram caminhos e outras que abrem portas.

O horizonte pareceu se alongar diante de mim.

— Novos desafios virão. Novos encontros. Outros céus, outros medos, talvez outros amores. Mas você não chegará vazia. Levará consigo aquilo que aprendeu sem precisar se lembrar.

Minhas asas estremeceram.

Não de medo.

De reconhecimento.

— Você está pronta — sussurrou a brisa. — Está pronta para começar.

E pela primeira vez compreendi que descansar não significava permanecer.

Era apenas o silêncio entre uma existência e outra.

Reclinei a cabeça e fechei os olhos.

Agora, já sem medo do escuro.

O vazio não gritava mais.

Havia paz nele.

Quando tornei a abrir os olhos, uma porta estava diante de mim.

A Porta: a criança diante da passagem entre um ciclo e outro.
III · A Porta O instante em que a passagem deixa de ser pressentimento e se abre.

A travessia.

Parei por um instante.

Olhei para trás uma última vez.

Não com saudade suficiente para permanecer, nem com dor suficiente para fugir. Apenas olhei.

Ali estava a Terra.

Minha peregrinação.

Os caminhos por onde caminhei sem saber para onde iam, as pessoas que amei, as que perdi, os lugares onde chorei escondida, os instantes em que pensei não suportar e, mesmo assim, continuei.

Tudo parecia tão distante.

E tão meu.

Voltei-me novamente para a porta.

Atravessei.

Quando percebi, já estava do outro lado.

Minha alma sorria como uma criança — doce, inocente, curiosa — como se nada soubesse e, ao mesmo tempo, carregasse dentro de si a memória silenciosa de todos os mundos que já havia atravessado.

Não havia medo.

Somente aquele espanto luminoso de quem contempla algo pela primeira vez.

Talvez seja assim que uma alma renasce.

Não esquecendo completamente quem foi, mas transformando suas antigas cicatrizes em sementes invisíveis.

Uma vida termina.
A alma repousa.
A porta se abre.
E então ela retorna.

IV · O Retorno Outra vez pequena. Outra vez inteira. Outra vez pronta para começar.

Outra vez pequena.

Outra vez inteira.

Outra vez pronta para amar, errar, perder, encontrar, aprender.

Pronta para peregrinar pela Terra novamente.

Sorri.

Minha alma sorriu.

E começou tudo outra vez.

Fragmentos de Travessia
“Era apenas o silêncio entre uma existência e outra.”

Evanilde Silva

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